sábado, 6 de junio de 2009

EL AMERICAN JAZZ FESTIVAL DE 1961

Com uma pequena gravadora (Imagem, Discos, Tapes & Filmes), Jonas Silva vem dando um exemplo às grandes fábricas, que insistem em sonegar do público brasileiro os grandes lançamentos de jazz e música erudita. Idealisticamente , suportando muitas vezes grandes prejuízos, Jonas tem editado nos últimos anos alguns dos melhores LPs de música erudita e jazz, em nosso mercado. Nos últimos meses, colocou um bom suplemento, onde se destacam Lps de Davo Brubeck, Duke Ellington, Collemam Hawkins, Pauls De mond e, especialmente, o álbum duplo "Jazz no Municipal" (Imagem, 5040/5041), onde reuniu os melhores momentos de um histórico concerto de jazz realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, há 12 anos passados, e que há muito já merecia ter aparecido em discos. Um dos grandres estudiosos de jazz do Brasil, José Domingos Raffaelli, apresenta o álbum, num texto tão lúcido e informativo, que aqui apresentamos, substituindo qualquer comentário que pudessemos fazer a propósito deste excelente disco, que reúne astros do jazz do nível de Coleman Hawkins, Zoot Sims, Tommy Flanagan Trio, Herbie Mann, Roy Eldridge, Jo Jones, Chris Connor, Curtis Fuller, Al Cohn e Kenny Dorham.

A NOITE de 16 de julho de 1961 constitui-se num evento dos mais auspiciosos para o público carioca, proporcionando um concerto da mais alta expressão musical com Jazzmen de primeira categoria. Com exceção das apresentações das orquestras de Dizzy Gillespie em 19569 e Duke Ellington em 1971, nenhuma outra superou as do American Jazz Festival.

A temporada do AJF na América do Sul, sob o patrocínio do Departamento de Estado norte-americano, foi iniciado em São Paulo, onde exibiram-se 4 noites consecutivas e, prosseguiu pelo continente, culminando em Buenos Airesm, quando os seus componentes receberam verdadeira consagração popular.

O público viveu momentos inesquecíveis, pois ao American Jazz Festival juntou-se o quinteto de Dizzy Gillespie, com músicas do quilate de Léo Writht, Lalo Schiffrin, Bob Connigham e Chuk Lampkin, tocando em jam sessions memoráveis, que prolongavam-se invariavelmente até o amanhecer, na melhor tradição do jazz. Alguns músicos brasileiros participaram dessas "after hours sessions", numa confraternização das mais salutares e proveitosas. Numa delas, o baterista Turquinho juntou-se a Tommy Flanagan e Bem Tucker; em outra ocasião foi Luís Chaves que tocou com os americanos. Em outra oportunidade. AhmedAbdul Malik experimentou a bossa nova, deixando o público surpreso com a sua imediata adaptação ao nosso ritmo brasileiro. Como Dave Bailey manifestasse o interesse em aprender o ritmo brasileiro, solicitou ao baterista Eliseu uma demonstração do autêntico samba, o que foi feito sob aplausos gerais dos espectadores da buate "Fanney`s". Numa outra noite, o próprio Gillespie participou de uma das jansessions como pianista, e também ficou tocando com músicos de uma escola de samba paulista.

Esta temporada apresentou momentos inesquecíveis de jazz, mas igualmente foi o marco de um fato histórico para a música brasileira, pois estes jazzmen interessaram-se pela bossa nova, divulgando-a extensivamente em seu país, dando á nossa música o destaque que a projetou em todo o mundo. Foram eles os pioneiros, ou citando-os nominalmente: - Herbie Mann, Al Cohn, Zoot Sims, Tommy Flanagan, Bem Tucker, Dave Balley, Kenny Dorham (que meses mais tarde escreveu o tema "São Paulo"), Curtis Fuller, Colemann Hawkins, além de Gillespie e seus músicos Lalo schiffrin e Léo Wright. Em março de 1962 Stan Getz gravou "Desafinado" com o guitarrista Charlie Byrd (que visitou o Brasil em 1960 e ficou encantado com a bossa nova), batendo recordes, de venda e fazendo a bossa nova "estourar" nos Estados Unidos. Na realidade , "desafinado" acendeu o estopim para a música brasileira, popularizando de tal forma o nome de Antônio Carlos Jobim, que em pouco tempo era conhecido mais como "o compositor de Desafinado" do que pelo seu próprio nome, e abrindo as portas para vários músicos e cantores serem lançados artisticamente num concerto no Carnigie Hall, em novembro de 1962, proporcionando a João Gilberto, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Carlos Lyra, Astrud Gilberto (lançada também por Stan Getz na carreira artística), Luís Bonfá, Bossa Três, Tamba Trio, e outros, um mercado internacional de trabalho.

A temporada do AJF foi prolífica em todos os sentidos e no Rio de Janeiro renovou-se o sucesso obtido em São Paulo.

Os DISCOS IMAGEM apresentam este LP duplo, que contém parte do concerto realiza o no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Os espectadores raramendavam-se conta do início das apresentações do AJF, pois os músicos utilizavam um pequeno estratagema que enganava o público; o contrabaixista Bem Tucker entrava no palco e começava a tocar seu instrumento por um chorus, como se o estivesse afinando: - Davi Bailey surgiu e acompanhava-o discretamente por mais chorus; o pianista Ronnie Ball juntava-se aos dois por mais 12 compassos, e durante a execução deste chorus surgiam no palco Al Cohn, Zoot Sins, Kenny Dorham, Curtis Fuller, Herbie Mann e Ray Mantila. Só então a grande maioria percebia que era o início do espetáculo e saudava os músicos com calorosas palmas, exatamente como ouvimos no disco.

Ao final do 3.o chorus um break de bateria dobra o andamento, e os instrumentos de sopro expõem "WEE DOT". Adotado como ponto de partida para longas improvisações sobre os blues do princípio ao final é projetado um balanço irresistível, criando de imediato um ambiente de entusiasmo entre os músicos e o público. Os solos sucedem-se na seguinte ordem: Zoot Sims em 5 choruses, Kenny Dorham em 8. Al Cohn em 8, Herbie Mann numa exibição impressionante de técnica em 12, Curtis Fuller em mais de 12, onde parece empenhado em demonstrar todo o seu conhecimento do instrumento, exibindo técnica impecável com frases velocíssimas e um controle instrumental absoluto, em meio a seu solo ouve-se um "riff" ao fundo apresentado em "Disorder at The Border", gravado por Coleman Hawkins em 1944, e 10 anos mais tarde por Miles Davis em "Blue N`Boogie". Seguem-se Ronnie Ball com 11 choruses, Bem Tucker com 3 em "Walking Bass", e a faixa enerra-se com o maior entusiasmo dos participantes e do público.

Concluindo o lado "A" do primeiro, disco os saxofonistas Al Cohn e Zoot Sims, com a mesma seção ritmica, reeditam os seus discos de grande sucesso, exibido toda sua categoria em HALLEY`S COMET e THE RED DOOR, com as idéias e consistência habituais.

A NIGHT IN TUNISIA oferece longas improvisações sobre o famoso tema de Dizzy Gillespie, clássico do jazz moderno, e contém uma tríplice de Kenny Dorham, Herbie Mann e curtis Fuller. O peruano Ray mantinha contribuiu vigorosamente para manter o clima exótico da composição.

Os veteranos e respeitados Coleman Hawkins, Roy Eldrige e Jones, músicos que criaram estilos originais em seu instrumentos, e serviram de modelos à milhares de jazzmen, apresentam RIFFTIDE, também conhecido como Kachensak, e baseado nas harmonias de lady Be Good. A seguir, num curto ballad medley, Roy Eldrige exibe a sua sensibilidade e bom gosto em THE MAN I LOVE, enquanto o patriarca do saxofone, Colleman Hawkins, apresenta a sua inesgotável inventiva, transformando BODY AND SOUL, na obra prima que ele conseguiu consagre em 1939, dissecando as suas harmonias, e reeditando outra improvisação definitiva do tema.

O trio formado por Flanagan, Malik e Jones, executa com extrema finesse LOVE FOUR SALE Flanagan premia a audiência com sua impressionante consistência, transformando a peça numa agradável integração de três músicos, e dando outras demonstração de raro bom gosto.

AUTUMN LEAVES é o veículo de Kenny Dorham, onde a sua sonoridade é projetada com toda sua beleza, em outro número excitante, verdadeiro modelo de improvisação em tempo médio.

Novamente Curtis Fuller mostra a sua técnica em IT`S ALL RIGHT WITH ME, num andamento tão rápido que obriga a seção ritmica a empregar-se a fundo para acompanhá-lo.

CARAVAN - é a vez de Jo Jones patentear tudo quanto sabe em matéria de bateria, e durante vários minutos extrai do seu instrumento todos os bons possíveis, presenteando o público com ritmos diversos, em exibição de grande efeito.

Um set da cantora Chris Connor abre o último lado do álbum, em 5 números do seu repertório, sendo que I GET A KICK OUT OF YOU tranformam-se em FROM THIS MOMENT ON.

JAZZ NO MUNICIPAL termina com Roy Eldrige e Coleman Hawkins tocando o parágrafo de LOVER COME BACK TO ME, intitulado Bean And The Boys, num "finale" adequado ao concerto daquela noite.

JAZZ NO MUNICIPAL é outro lançamento audacioso da IMAGEM, que habituou o público aos discos de real valor artístico no campo do jazz.

E uma gravação rara mesma nos estados Unidos. Decorreram 11 anos desde que este concerto foi realizado, mas a sua música em nada diminui de interesse para aqueles que realmente se dedicam ao jazz. Muito embora o jazz haja percorrido um longo caminho, desde então, a música que o AJF nos apresentou é da melhor qualidade, alegria, descontraída e sincera.

JAZZ NO MUNICIPAL é um registro daquela noite memorável para os que tiveram a felicidade de ouvir um concerto ao vivo. É, igualmente, uma audição das melhores para os jazófilos da nova geração que ainda não tinham suficiente idade para ir ao Municipal na época. De qualquer forma é um disco de grande valor para todos os que irão ouvi-lo.

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Kenny Dorham tocou em São Paulo e no Rio em julho de 1961, integrando a caravana de astros American Jazz Festival (a gravadora Imagem lançou um LP duplo, e posteriormente dois CDs, do concerto deles intitulado "Jazz no Municipal", em 16 de julho de 1961. A troupe incluiu 14 músicos e uma cantora distribuidos em três formações. Vieram Coleman Hawkins, Roy Eldridge, Al Cohn, Zoot Sims, Kenny Dorham, Curtis Fuller, Herbie Mann, Ronnie Ball, Tommy Flanagan, Ben Tucker, Ahmed-Abdul Malik, Dave Bailey, Jo Hones, Ray Mantilla e a cantora Chris Connor. Chefiando essa constelação veio o ultra-famoso Willis Connover, o mais popular disc-jockey de jaaz em todo o mundo. Os músicos dividiam-se nos quintetos de Al/Zoot e Hawkins/Eldridge, o trio que acompanhou Chris Conner, o sexteto com Dorham-Fuller-Mann e seção rítmica, e a sensacional abertura dos concertos com todos no palco, exceto Chris Connor. Foi uma temporada inesquecível. Caso algum dos amigos tenha essas gravações, sabe do que estou falando. Como curiosidade, na última hora Curtis Fuller substituiu J. J. Johnson, Al Cohn substituiu Sonny Stitt e Chris Connor substituiu Jimmy Rushing, o magnífico "Me. Five by Five" dos áureos tempos da orquestra de Count Basie. Naturalmente, eu e todos os jazzófilos aqui da terra cercamos os músicos para papos, almoços e jantares. Os músicos foram super receptivos. Foram alguns deles que levaram a bossa nova para os USA após conheceram-na aqui, gravando os primeiros LPs da então nova música brasileira. Herbie Mann voltou no ano seguinte para aqui gravar o LP "Do the Bossa Nova!" com Baden Powell, Jobim, Sérgio Mendes, Luiz Carlos Vinhas, a bateria de um escola de samba e outros.
No seu regresso, Kenny Dorham compôs o tema "São Paulo", em homenagem à capital paulista. Na ocasião, mencionei o quanto fiquei emocionado com sua gravação "Autumn in New York", uma obra-prima registrada ao vivo no Café Bohemia para a Blue Note. Em 1962, Dorham submeteu-se ao famoso blindfold test do crítico Leonard Feather na revista Down Beat. No final do teste, Feather perguntou-lhe quais os melhores trompetistas de jazz da nova geração e ele citou Lee Morgan e o paulista Maguinho D'Alcantara, que ouviu em São Paulo, acrescentando "ele tocou a música mais maravilhosa que ouvi nos últimos tempos". Maguinho fez uma cópia ampliada da página da Down Beat colocando-a num quadro na sua sala de música.
Em minha opinião, além de trompetista, compositor e arranjador underrated, Kenny Dorham, falecido aos 48 anos, deixou uma obra valiosíssima, criativa, bela e atemporal que ouço constantemente nos diversos CDs que tenho em nome dele e como sideman em mais de 40 outros CDs.

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